Eu cresci rodeada por couros de todos os tipos.
Minha família trabalha com couro bovino e peles de ovelha há cinco gerações. Eu sou a quinta. Desde pequena, convivo com esse universo e sem perceber fui aprendendo coisas que ninguém nunca me ensinou direito.
Reconhecer uma boa pele pelo toque.
Saber se a matéria foi bem tratada só pelo cheiro.
É um conhecimento que não está escrito em lugar nenhum. Ele passa de uma pessoa para outra, ali do lado do fardo.
A gente ama esse trabalho, e ele segue firme. Mas conviver a vida inteira com essa matéria acabou despertando em mim a vontade de fazer alguma coisa diferente com ela.
Em 2020, eu e minha mãe resolvemos fazer o primeiro par. Sem plano, sem pesquisa, sem nada. Era curiosidade mesmo.
Pegamos uma pele natural, fomos atrás de quem soubesse montar, erramos bastante, refizemos. Quando ficou pronto, eu calcei e não quis mais tirar.
Depois, uma amiga da minha mãe quis um. Em seguida, começaram a aparecer pessoas que a gente nem conhecia pedindo também.
Vendemos por um tempo. Depois paramos. Passamos um período apenas olhando para o produto e pensando no que ele poderia ser.
Em março de 2026, voltamos a vender.
Em três meses, mais de 500 pares foram vendidos.
Mas a parte que mais me ensinou foi outra.
Na minha cabeça, eu tinha criado uma coisa para usar em casa, no inverno, no fim do dia. Foi assim que imaginei enquanto projetava a Lanea.
Só que as pessoas começaram a me mandar fotos usando na rua.
Na padaria. Para passear. No aeroporto. Até no dia do casamento.
Eu poderia ter corrigido. Explicado o uso certo, sugerido ocasiões, dito onde fica bem e onde não fica.
Mas achei bonito.
E fiquei pensando que quem estava me ensinando ali eram elas.
Então ficou assim.
A gente cuida da parte que sabe fazer: escolher a matéria, respeitar o que ela é, construir com honestidade e entregar um par que dura.
O que acontece depois é de quem calça.
Se fica em casa ou vai para a rua.
Se combina com pijama ou com calça de alfaiataria.
Se é para o inverno ou para o ano inteiro.
Isso é decisão sua. E, para mim, vale muito mais do que qualquer coisa que eu pudesse dizer.
Conforto simples, sem manual.
Nosso primeiro modelo se chama Filipa. É feito de couro de ovelha com a lã preservada, faixa única e bico aberto, produzido no interior do Rio Grande do Sul.
Está disponível em Natural, Caramelo e Preto.
A lã cede com o uso e vai guardando o formato do seu pé. Depois de um tempo, cada par fica um pouco diferente do outro.
Eu gosto muito dessa parte.
É um projeto novo e eu estou muito animada com ele.
Espero que vocês gostem tanto quanto eu.
Renata Richter